Logosofia Nova Cultura
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Deus E O Conhecimento
A relação do homem com a Natureza ou Deus não pode ser sobrenatural.
Deus não pode ser, tampouco, exclusividade deste ou daquele agrupamento, por ter forte relação com o homem e a Natureza,a harmonia, e também com a arte, que no dizer de Borges é um pequeno milagre. Cada sentido é um dom divino, escreveu Bandeira. E a vida deveria ser feita de arte, que é divina, como o dom de reconhecê-la, por ser a beleza uma revelação.
O espectro de Sócrates não nos abandona ao nos murmurar continuamente que o ignorante é o que acredita saber, mas não sabe, o crente numa realidade fictícia, imaginária. Sócrates foi condenado porque buscava a verdade, o conhecimento, pois abominava a ignorância. Essa busca era um princípio de conhecimento, e ele se julgava predestinado a abrir os olhos da inteligência dos jovens para que começassem a pensar por própria conta, serem verdadeiramente livres, pois a única salvação está no conhecimento.
Deus não escreve livros, escreve homens, naturezas, o Universo. Este é o Verbo Divino. Homens escrevem livros, e a linguagem humana provem daquela - a ancestral - pois visa nomear uma escritura maior.
E de onde provêm as diversas línguas criadas pelos homens?
A linguagem - as palavras que deveriam ser utilizadas para nomear O Verbo e para que os homens se unissem neste trabalho - passou a ser instrumento de dissensão. Então surgiram as línguas, os afastamentos, a linguagem decaída, a babélica.
Se a palavra escrita é o corpo físico do pensamento, para se chegar a ele - que é invisível, incorpóreo -, poderemos fazê-lo através dela.
Se o corpo físico do homem, o visível, o palpável, guarda em suas profundezas uma inteligência, uma sensibilidade, uma essência invisível e intocada, ele também - o espírito humano - assemelha-se ao pensamento, à essência invisível da palavra.
"O essencial é invisível aos olhos", escreveu o inspirado piloto francês.
O espírito, como o pensamento - invisíveis e essenciais que são -, como os sentimentos, os sonhos e as recordações, deveria merecer de nós uma atenção maior.
E como ocupar-se mais de si mesmo? Como conhecer-se melhor?
A tarefa não é fácil, mas também não é impossível; começando por deixar de se ocupar tanto dos outros e do que nos cerca, cultivando um olhar reflexivo e auto-observador. Somos especialistas na observação do que acontece ao nosso redor, mas ausentes de nós mesmos. Não chegamos a aproveitar as lições do que nos cerca para aperfeiçoar nossa pessoa, que é o que mais deveria nos interessar.
Não somos muito diferentes de um pensamento que pode ser bom ou mau,necessita reproduzir-se para sobreviver como espécie e pode evoluir nos curtos anos de vida física.
Deus quer que o ser humano use a sua inteligência e o seu coração para se aproximar da Verdade que se confunde com o aperfeiçoamento humano. Ele não é o pai vingativo que atemoriza seus filhos e se regozija com guerras fratricidas que os insensatos dizem fazer em Seu nome.
Lutar pela liberdade própria e social, procurando respirar as verdades imanentes à natureza, e as que brotam da inteligência e do coração, é a sensata e eloqüente postura do aprendiz que, apesar de reconhecer as suas limitações, não se conforma com a imobilidade e a submissão.
Para que não sejamos letra morta num livro inútil e sem vida, deveremos aprender a escrever a própria história com letras visíveis e invisíveis, como autores e atores, ao invés de espectadores passivos a assistir aos dramas vividos por tantos que sofrem por não pensar, por falar línguas diversas, por estar sempre a se desentender. E talvez possamos recuperar a linguagem perdida que na infância da humanidade sabíamos tão bem pronunciar.
Nagib Anderáos Neto
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Observar e Pensar
O que é observar? Seria o mesmo que pensar, refletir, recordar, raciocinar?
O que se deve observar? O que tem a observação a ver com o entendimento?
E a inteligência, onde fica?
Observar não é apenas olhar, contemplar, senão ver e entender. É uma capacidade da inteligência que pode ser desenvolvida, educada e utilizada para o bem próprio e coletivo. É necessário que um objetivo guie a observação. A palavra inteligência provem do latim e significa capacidade de ler por dentro, penetrar no sentido íntimo do que se vê. Se olho para os rios e os prados absorvendo e aprendendo a calma da Natureza em seu incessante movimento, dei um destino prático à observação porque me espelhei no que vi. Se olho para as paisagens interiores, pensamentos tumultuados e intempestivos que estão na mente e exercito-me na imposição de ordem e disciplina que as harmonizem, dei um destino positivo para a observação que se confunde com a reflexão, o pensar, a recordação, a inteligência - o sol interior que cada ser humano tem e que pode brilhar mais e mais, libertando-nos da escuridão - , pois o maior cego não é o que não quer ou não pode ver, senão o que não quer ou não pode entender. E os primeiros entendimentos que devemos realizar são os que possamos ter sobre nós.
É difícil julgar as outras pessoas sem antes haver aprendido a exercer o juízo sobre si. Julga-se, em geral, em função de apreciações alheias, pelo que se ouviu dizer, e não pelo que realmente se observou. A observação consciente – conforme nos esclarece o pensador González Pecotche em inúmeros escritos e conferências – deveria servir para corrigir as nossas imperfeições. O que vemos de desagradável na conduta de uma pessoa levar-nos-ia a verificar se não existe em nós aquela característica. Mas o ser humano não sabe olhar para si; olha o mundo como se não fizesse parte dele; vê, mas não enxerga e nem entende que todo aquele cenário está ali para transformá-lo em diretor e ator do espetáculo da sua vida. Ao invés disso, gasta seu tempo admirando ou criticando outras vidas e mundos, esquecendo-se de si, e que dentro dele existe um pequeno universo no qual poderia viver e ser feliz. Essa falha gritante da cultura engendrou nas mentes a tendência ao escapismo; viver fora da realidade, sempre a fugir de si, no trabalho, diversões, estudos, leituras, nas platéias, pois não consegue conectar aquilo que acontece à volta com a sua realidade. Olhar para a Natureza e seguir o exemplo de paciência, movimento, renovação, evolução, e exercitá-lo no dia-a-dia através da capacidade de pensar, criar e se modificar.Ao invés disso, vamo-nos transformando em atores que decoram e interpretam falas escritas por outros que foram atores como nós, repetindo frases e cenas que compõem as tradições que – como disse González Pecotche – são o cemitério das idéias.
Romper com essa inércia é o grande desafio da humanidade no despontar do terceiro milênio. Ao voltar-se para si e educar-se, o homem do futuro transformará o horroroso espetáculo de guerras, corrupção e violência no qual se encontra num cenário condizente com a espécie inteligente que um dia poderemos chegar a ser.
Ao dizer que tudo o que sabia era que nada sabia, Sócrates dá-nos a pauta de uma conduta, caso queiramos aprender e evoluir. Será necessário arrancar a máscara da personalidade que nos leva a aparentar aquilo que não somos, mas que imaginamos. Se ela não estiver aderida à epiderme psicológica, poderemos iniciar o caminho para construir a individualidade.
Já se disse que os homens são livres, mas não o sabem; nascem livres e vão perdendo esse dom que lhes fazia sentir imortais, verdadeiros super-homens naquele formidável universo infantil. Esse seria o tão bem guardado segredo dos tiranos, o fato de saber que os homens podem chegar a ser livres novamente, mas não enxergam isso, transformando-se em escravos nas mãos daqueles déspotas.
A liberdade é um dom que, se não utilizado, pode desvanecer-se, da mesma forma que a inteligência e a sensibilidade humanas.
É comum ouvir-se dizer que o ser humano usa um quase nada de sua capacidade mental; que uma mente preparada poderia realizar verdadeiros prodígios. Por que isso acontece? Por que a mente humana é pouco utilizada? Quais as causas dessa deficiência? O que fazer para tornar a mente mais eficiente?
Essa falta de liberdade é como um cárcere cujos barrotes são o temor de pensar por própria conta, os preconceitos, a ignorância sobre si e as Leis que regem o Universo.
Todos querem a liberdade, trazem-na dentro de si como algo que não se realiza, e, no fundo, sabem que o ser humano não deve curvar-se perante poderes quaisquer.
Se o homem, como diziam os gregos, é a medida de todas as coisas, por que vive tão esquecido de si, tão ausente, entretido com o que não é essencial por ser passageiro e efêmero?
A verdadeira liberdade é a de pensar. É assim como o espírito humano respira,criando,tendo um domínio sobre os pensamentos que perambulam por aí fazendo os estragos que sabemos quais são.
Ser livre é usar com liberdade a inteligência, suas faculdades, e não somente a memória e a imaginação,como nos têm pretendido impor aqueles que nos querem manter atados às rédeas da submissão. Os tiranos, os ditadores, os inimigos da liberdade não querem que o ser humano pense, porque tal grito de liberdade é a ameaça ao poder que as ânsias de domínio desenham em suas mentes doentias.
Pensar, observar, raciocinar, refletir, combinar e julgar são algumas faculdades da inteligência que não têm sido muito exigidas e desenvolvidas pelo ser humano que pode deixar de ser joguete e escravo de pensamentos alheios que nada têm a ver com a felicidade almejada pelos que sonham com a liberdade.
Nagib Anderaós Neto
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
O Espírito
O livro O Espírito é obra póstuma.O autor, González Pecotche, analisa e descreve a prerrogativa humana da evolução através do despertar do próprio espírito.
Embora sendo um ser indivisível, o homem traz consigo um grande elemento-poder que pode ter presença ativa na vida através da organização de seus mecanismos psicológicos: o sistema mental e o sensível. Provenientes de um mundo invisível aos olhos físicos, as manifestações do espírito são perfeitamente palpáveis através de suas criações e do exercício do livre-pensar, bem como das mudanças que se pode promover na vida. Conhecer o espírito implica a possibilidade de sua participação ativa na vida diária. Embora sua realidade seja profundamente sentida durante os sonhos, devemos buscar a participação consciente dessa capacidade superior do indivíduo na vigília.
Para a Logosofia, “o espírito é a consciência vivente”. E “a consciência, a essência viva dos conhecimentos que a integram”. Portanto, quanto maiores forem os conhecimentos, maior consciência e participação do espírito no dia-a-dia. Esses conhecimentos não são os de natureza corrente, comuns, mas relacionados com a realidade metafísica do espírito, com o mundo mental, a conformação da inteligência, da sensibilidade e com os pensamentos que temos na mente; eles possibilitarão que criemos nossos pensamentos ao invés de ser escravos dos provenientes de outras mentes.
Despojada de tudo o que é fantasioso e irreal, a abordagem do autor nos permite antever a magnífica experiência interior que se poderá viver ao possibilitar maior atuação do espírito na vida.
Para a Logosofia, o conhecimento de si mesmo implica o da mente, da sensibilidade e o domínio dos pensamentos. A integração desses conhecimentos possibilita a expansão da vida do espírito humano. Assim como na Natureza tudo o que não se reproduz deixa de existir, a reprodução dos conhecimentos mencionados poderá garantir a expansão da existência do espírito individual.
Em sua segunda parte, a obra trata dos sonhos que todos experimentamos enquanto dormimos esclarecendo sobre a estreita ligação entre eles e o espírito individual.
As palavras colocadas pelo autor nesse livro são expressão de seus pensamentos e de seu espírito que vive na obra por ele criada e de grande valor pedagógico: O Espírito. .
Os livros, como os seres humanos, podem ser úteis ou não.Essa obra, cujos originais o autor deixou com sua esposa que a publicou postumamente em Buenos Aires no ano de 1968, traz uma mensagem de esperança na superação individual pelo conhecimento.
Nagib Anderáos Neto
terça-feira, 14 de agosto de 2012
O Ser Humano Sustentável
O ser humano sustentável deveria ser generoso, viver para si e os demais, os que estão aqui e os que virão. O sentimento de generosidade é de fundamental importância para a vida. Ele começa no aprendizado e deságua na docência, porque ninguém pode dar o que não tem, ensinar o que não sabe. Ser generoso é ser humano, desprendido, útil. É sentir o vínculo superior que a todos deveria unir; experimentar a realidade do que o cerca. Ser um e o mundo inteiro.
O egoísmo contrapõe-se à generosidade e é expressão de um materialismo que permeia toda a cultura e se esconde sob o manto de um pseudo – progresso, justificado por teorias econômicas retrógradas onde tudo é permitido na busca do lucro e riqueza em nome da satisfação ou prazer de consumidores insaciáveis.
Equivocados conceitos têm norteado a vida do ser humano tornando-o frio, materialista, calculista. Esse egoísmo sufocante deverá ser combatido e substituído pelo desprendimento, condição das almas generosas.Ele é sinônimo de materialismo, cobiça, busca exclusiva de prazeres.Leva à insensibilidade e a uma sede infindável por riqueza e poder. O egoísta, para consumar seus objetivos, não titubeia em destruir a Natureza ou os outros seres humanos.
Nesta vida tudo tem seu tempo; se não realizarmos o que deveríamos, ele passa a pertencer a um passado que não poderá ser recuperado. A lição se reitera e determinará sua estreiteza ou amplidão.
Se este é o tempo de combater o egoísmo que persiste , deveremos fazê-lo , deixando de ter atitudes egoístas, separatistas, transformando este amor desmedido às riquezas e prazeres no desprendimento, virtude que liberta da escravidão imposta por tal defeito.
Partidos políticos, correntes ideológicas e religiões são divisionistas. Homens desunidos são domináveis; esse é o grande segredo dos déspotas, ditadores, impostores, escravizadores: manter a humanidade desunida para dominá-la.
Os homens devem estar unidos pelo sentimento e o conhecimento, o coração e a razão. E dizer não aos predicadores, aos fariseus que em sua louca ambição pretendem impor pensamentos, idéias e padrão de comportamento que beneficiem suas ânsias de poder.
Deus está em todos os corações e não é privilégio desta ou daquela religião, e nem aquele negado por ateus e agnósticos, por não ser mais que o amor que em tudo está impregnado: no filho, no pai, no sol, na Natureza eloqüente que está sempre a segredar atividade, paciência, vida e inteligência.
O ser humano sustentável defende a humanidade, pois com o homem tudo se confunde, por ser ele o mesmo Deus que traz em seu coração, e como já dito reiteradas vezes, a medida de todas as coisas.
Sustentabilidade tem a ver com permanência, evolução, educação.
O sustentável é o eterno, o durável, o permanente.
Nagib Anderáos Neto
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Os Dois Trabalhos de Hércules
O maior herói mitológico da Grécia, Hércules, símbolo da força, o mais forte homem sobre a terra, era uma espécie de semideus. Nada que existisse no ar, no mar ou na terra poderia derrotá-lo. Em suas aventuras há uma representação poética do valor posto a serviço da humanidade como na eliminação da serpente de cem cabeças, no combate aos gigantes, na morte do leão de Neméa.
O seu intelecto, no entanto, não era forte. Ele não era um herói perfeito como Theseu, o dos atenienses, que era forte de corpo e intelecto. Mesmo assim, ele se julgava em igualdade com os deuses. Era um filho torto de Zeus; poderia apenas ser vencido por uma força sobrenatural, como de fato aconteceu por uma mágica encomendada por Hera, a esposa de Zeus que não era a sua mãe.
Para a Logosofia, os trabalhos hercúleos e sobre-humanos não são doze, e sim dois: encarar, combater e derrotar a fera que cada ser humano traz dentro de si como herança ou estigma de épocas distantes, quando ela lhe fora útil em seus primeiros tempos sobre a terra, e unificar as qualidades e potencialidades que traz como herdeiro de um Criador que em todos infundiu o sopro da genialidade e do amor.
Cada homem pode encarnar o Hércules legendário utilizando agora a sua força psicológica para derrotar os inimigos interiores, os seus defeitos, que lhe impedem contemplar a Verdade e ser feliz; viver em paz e cumprir a missão maior que lhe foi encomendada: evoluir e ser útil aos seus semelhantes.
Numa conferência pronunciada em Buenos Aires em 30 de Setembro de 1948, o pensador e humanista Carlos Bernardo González Pecotche afirmava que “são estes os dois trabalhos de Hércules que é necessário realizar, porque as deficiências, que são as que desdobram a personalidade humana e as que enganam com freqüência o próprio ser, são as que também, convertidas numa espécie de diabo pessoal, aconselham constantemente o homem a crer-se o que não é. Um ser desta índole é o pior dos crentes, porque chega a converter-se em um pequeno deus, pessoal e infalível: e, logicamente, erguido sobre semelhante pedestal, rechaça todo o intento de aperfeiçoamento e anula todo o esforço que tenda a desarraigar nele esta recôndita crença”.
Nagib Anderáos Neto
neto.nagib@gmail.com
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Reminiscência de São Carlos do Pinhal
Sob o título “Aprendendo a Ver o Invisível” proferi palestras públicas em várias sedes da Fundação Logosófica, como as de Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Florianópolis e Brasília.
Era para expor aspectos sobre a Logosofia, criação de Carlos Bernardo González Pecotche, por ele definida como a “especialidade científica e metodológica que se ocupa da reativação consciente do indivíduo”, também tida como a “ciência do invisível” por conter todo o princípio metodológico que ensina o ser a conhecer a vida e a atividade dos pensamentos, dos sistemas mental, sensível e instintivo, que são invisíveis.
Planejei expor, a certa altura, uma passagem de minha vida inspirada no diálogo nº 44 do livro “Diálogos”, de autoria do criador da Logosofia sob o título “O ser que todos temos esquecido, em quem ninguém pensa apesar de, entretanto, constituir algo essencial para nossa vida”.
Para expor uma parte do invisível que é referido nesse diálogo, recorri a um episódio de minha vida quando iniciava o período da adolescência.
Quando tinha onze anos, para então seguir o chamado curso ginasial, fui estudar no Ginásio Municipal da cidade de São Carlos, hoje chamado Diocesano, cidade essa que o bispo Dom Gastão Liberal Pinto dizia situar-se no coração do Estado de São Paulo.
Ali cumpri o curso em regime de internato; vivia o tempo todo no interior do ginásio, de manhã à noite, estudando, praticando esportes e convivendo com dezenas de outros colegas, com direito a passear pela cidade aos domingos e as férias nas casas das cidades de onde provínhamos.
Dentre tantos colegas, referi-me a um em especial, Huascar, com quem convivi de 1941 a 1947, desde os onze até os quinze anos de idade.
Em dezembro de 1947, então formados no curso ginasial, de cuja turma tive a honra de ser orador e da qual foi paraninfo Luiz Augusto de Oliveira “o Luizão” que hoje leva seu nome na estrada que sai de São Carlos , encontrávamos-nos na porta do majestoso edifício do ginásio para despedir-nos dos colegas que dali em diante passariam a viver nas cidades de origem.
Naquela época usávamos calças curtas e também gravatas.
Eu estava com uma gravata azul, reluzente, feita de fibra sintética criada após a recém-encerrada 2a. Guerra mundial. Havia sido presenteada por um querido parente.
Quando o Huascar foi se despedir de mim, disse-me: “Eu gostaria de levar essa gravata sua como lembrança”.
E eu, que gostava tanto daquela gravata, respondi: “Esta não. É a que mais gosto. Vou abrir a mala que está aqui e você pode escolher qualquer gravata para levar de lembrança”.
E o Huascar me respondeu: “Não quero outra gravata. Se não posso levar essa, não quero qualquer outra”.
Assim nos despedimos, ele sem a gravata azul e eu com ela.
Muitos anos se passaram sem que nos tivéssemos visto ou conversado um com o outro.
No curso desses anos, mudei-me para São Paulo, segui outros cursos, casei-me, tive filhos e, para onde ia vivendo, levava sempre comigo a tal gravata que não dei ao Huascar.
A gravata já havia saído de moda e eu não mais usava.
Mas sempre me fazia recordar do Huascar. E pensava: “Porque não dei a gravata ao Huascar?“ Serve sim para recordar as tantas vivências juntos no ginásio interno em São Carlos. Mas, e ele, sem ela?
Assim passaram-se trinta anos, quando em dezembro de 1977 fui convidado para uma festa de confraternização com os formandos da turma de 1947, nas dependências daquele mesmo ginásio em São Carlos.
Pensei: “Será que o Huascar também irá?” Reuni as fotografias da época, cartas, manuscritos e a tal gravata que não dei ao Huascar.
Pensava em entregar a ele e dizer quanto aquela gravata me havia feito recordar dele e das tantas vivências que havíamos vivido na adolescência durante o internato naquele ginásio.
Quando lá cheguei encontrei um colega que logo me reconheceu e perto dele havia outro que eu não consegui identificar.
Eu portava a gravata no bolso externo de meu paletó, sem embrulho. Queria entregá-la ao Huascar rapidamente quando o encontrasse.
E aquele colega que me identificou perguntou-me: ”Você sabe quem é esse que está ao meu lado?” Respondi: “Não”. Era difícil reconhece-los depois de 30 anos, todos com aproximadamente 45 anos, alguns já sem cabelo...
E ele me disse: “É o Huascar”.
Fiquei, e ele também, muito feliz com o encontro e nos abraçamos entusiasticamente.
Logo em seguida coloquei a mão no bolso para retirar a gravata e antes que a tivesse retirado o Huascar me disse: ”Pois é Antonini, a ultima vez em que nos vimos você ficou me devendo uma gravata”.
Fiquei atônito, perplexo. Parecia-me impossível que depois de 30 anos ele ainda se recordasse daquele episódio. Que eu recordasse era natural, pois a gravata esteve sempre comigo.
Saquei então a gravata do bolso do paletó e a entreguei a ele dizendo: “Mas hoje eu a trouxe para você”.
Foi a vez dele de ficar perplexo e atônito, enquanto eu lhe dizia quanto aquela gravata me havia feito recordar dele durantes três décadas.
Cinco anos depois comecei a estudar um livro publicado em 1952, chamado “Diálogos”, de autoria de Gonzaléz Pecotche, o criador da Logosofia.
Continha 53 diálogos, todos me encantando um mais que o outro, quando me detive de modo especial nas reflexões que me proporcionavam o Diálogo 44.
Quando na palestra relatava o episódio da gravata, mencionei trechos desse Diálogo 44, como os seguintes:
“Existe um ser a quem todos, sem exceção, temos esquecido; se é recordado uma ou outra vez, tem sido em forma circunstancial, mas essa recordação fugaz não cumpre o que vou assinalar, razão pela qual sinto-me movido a declarar seu geral esquecimento. Esse ser é a criança que cada um foi, aquela que brindou os melhores dias da existência e a quem, pode-se dizer, lhe devemos grande parte do que agora somos”.
“Aquele que pensa nessa criança e a contempla através de suas recordações, em seus brinquedos, em seus pensamentos, em suas inclinações e em sua inocência, verá quanto tem de aprender dela e quanto lhe deve; mais ainda: quanto deveria conservar daquele pequeno que hoje, grande em tamanho e em idade, seja-lhe permitido experimentar, pelo menos, algumas daquelas inocentes, porém gratas sensações que brindaram a sua vida as melhores horas”.
“Seria bom se cada um recordasse esse menino, o que foi, o que morreu. Que o recorde muito, porque nessa recordação vai implícito o enlace da atual existência com a que foi, pois o esquecimento não somente destrói o vínculo que as une, senão também a própria sensibilidade”.
“Se esquecemos a nossa própria criança, aquela que morreu, cometemos com isso, talvez sem querer, um crime simbólico; morrerá também o jovem, e, sucessivamente, o que fomos ou temos sido em cada idade. Assim se irá esfumando no esquecimento e, sem sentir, morrerá em nós, lentamente, toda nossa vida”.
José Antonio Antonini
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
O Tempo e a Eternidade
A Logosofia é um estudo que atende aos anseios objetivos e práticos do homem moderno que entende que a vida deve ser feita de mudanças, não apenas as circunstanciais, senão as essenciais, na maneira de pensar, sentir e agir; se for para mudar para melhor, então é melhor mudar.
Recordemos a questão do tempo e da eternidade, e aquela sensação infantil de que ele não passava nunca, contrastando com o vertiginoso suceder das horas e dias quando avançamos em idade e sentimos que a morte se aproxima a largos passos, analogamente ao que acontece com a areia na ampulheta que desce lenta e vagarosamente no início, afunilando rapidamente no final. Qual seria o mistério do tempo? E o da vida?
Essas reflexões reportaram-nos à obra de Spinoza, o pensador cuja família fugiu de Portugal no século dezesseis por causa da inquisição indo estabelecer-se em Amsterdã onde o jovem filósofo foi perseguido pela sinagoga local, excomungado e preso por defender as idéias do livre-pensar e por dizer não ser necessário morrer para entender sobre Deus e a eternidade, senão possível conhecê-la daqui, pois todos temos uma chama divina e interior, Deus no coração, e podemos e devemos pensar com liberdade, por própria conta.
O estudo logosófico tem muito a ver com as inquietações de Spinoza; poder viver o mais além, o depois da morte, desde aqui; dar um salto por sobre a morte e experimentar a eternidade em nosso existir físico. O tempo é uma das forças que se movem no mundo e precisamos aprender e nos comportar com ela, pois é uma expressão de vida; quando ele é mal gasto, perdemos vida.
O que significaria aproveitar o tempo? Para a Logosofia o aproveitamento do tempo tem muito a ver com o ato de pensar. Pensar no que? Em si mesmo, nos semelhantes e em Deus. Mas como? Pensar em si mesmo, em como se é, em como se modificar, melhorar como ser humano. Que defeitos eu tenho? No quê e como posso melhorar? Quais qualidades tenho e como posso ampliá-las? Compreendendo quem se é e procurando ser uma pessoa melhor, pode-se compreender o semelhante, conviver melhor . Vivendo esse processo de mudanças, pode-se experimentar a grande prerrogativa do aperfeiçoamento e ganhar tempo ganhando vida, vivendo numa vida várias outras, experimentando a eternidade no coração.
Para a Logosofia, a vida do ser humano tem dois grandes objetivos: evoluir e tornar-se um servidor da humanidade. O ser humano sempre pressentiu algo superior movendo o Universo, mas extraviou-se procurando por todas as partes sem se dar conta que esse algo pudesse estar dentro dele mesmo, na sua consciência, no seu coração.
Temos uma vida profissional, familiar, social. Mas temos também uma interior, a mais importante, e precisamos nos ocupar dela diariamente.
Quando olhamos uma obra de arte, uma escultura, um quadro, um livro, é preciso compreender que o artista a fez durante um longo tempo, cada dia um pouquinho, e desses pequenos fragmentos somados surgiu a obra pronta através de uma concentração de tempo. A nossa vida deve ser como um grande livro, uma obra de arte na qual vamos agregando algo novo a cada dia, o livro da vida. O artista não pode ter pressa e nem preguiça. A maior obra de arte que o ser humano pode fazer é esculpir a sua figura, escrever o próprio livro da vida, ser o autor, o ator e o espectador dos seus dias, dando um salto por sobre a morte e vivendo a eternidade em seu físico existir.
Esta é a mensagem que traz a Logosofia nos dias de hoje, uma filosofia prática da modernidade, e democrática, pois todos podem ser pensadores como Spinoza, Descartes, Sócrates, Platão; pensar e realizar em si mesmos o aperfeiçoamento que lhes faça compreender o porquê de estar aqui, para quê se vive.
Hoje ainda há as perseguições medievais; e os maiores inimigos do livre-pensar estão dentro de nós. Precisamos conhecê-los e combatê-los: a inércia, a falta de vontade, o desinteresse, o materialismo desenfreado, o desequilíbrio entre a natureza física e a espiritual.
O ser humano busca a Verdade por uma vocação natural. Ao não encontrá-la, ao entreter-se com o que não é essencial, pode chegar a envelhecer em plena juventude.
O conhecimento logosófico aponta para um caminho que cada um pode percorrer com as próprias pernas, sem nenhuma muleta. Não traz respostas prontas às indagações humanas. E cada um, ao percorrer esse caminho de aperfeiçoamento pessoal irá identificando-se com a Verdade que é, em essência, o Deus que trazemos em nossos corações.
Nagib Anderáos Neto
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