quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O Espírito

O livro O Espírito é obra póstuma.O autor, González Pecotche, analisa e descreve a prerrogativa humana da evolução através do despertar do próprio espírito. Embora sendo um ser indivisível, o homem traz consigo um grande elemento-poder que pode ter presença ativa na vida através da organização de seus mecanismos psicológicos: o sistema mental e o sensível. Provenientes de um mundo invisível aos olhos físicos, as manifestações do espírito são perfeitamente palpáveis através de suas criações e do exercício do livre-pensar, bem como das mudanças que se pode promover na vida. Conhecer o espírito implica a possibilidade de sua participação ativa na vida diária. Embora sua realidade seja profundamente sentida durante os sonhos, devemos buscar a participação consciente dessa capacidade superior do indivíduo na vigília. Para a Logosofia, “o espírito é a consciência vivente”. E “a consciência, a essência viva dos conhecimentos que a integram”. Portanto, quanto maiores forem os conhecimentos, maior consciência e participação do espírito no dia-a-dia. Esses conhecimentos não são os de natureza corrente, comuns, mas relacionados com a realidade metafísica do espírito, com o mundo mental, a conformação da inteligência, da sensibilidade e com os pensamentos que temos na mente; eles possibilitarão que criemos nossos pensamentos ao invés de ser escravos dos provenientes de outras mentes. Despojada de tudo o que é fantasioso e irreal, a abordagem do autor nos permite antever a magnífica experiência interior que se poderá viver ao possibilitar maior atuação do espírito na vida. Para a Logosofia, o conhecimento de si mesmo implica o da mente, da sensibilidade e o domínio dos pensamentos. A integração desses conhecimentos possibilita a expansão da vida do espírito humano. Assim como na Natureza tudo o que não se reproduz deixa de existir, a reprodução dos conhecimentos mencionados poderá garantir a expansão da existência do espírito individual. Em sua segunda parte, a obra trata dos sonhos que todos experimentamos enquanto dormimos esclarecendo sobre a estreita ligação entre eles e o espírito individual. As palavras colocadas pelo autor nesse livro são expressão de seus pensamentos e de seu espírito que vive na obra por ele criada e de grande valor pedagógico: O Espírito. . Os livros, como os seres humanos, podem ser úteis ou não.Essa obra, cujos originais o autor deixou com sua esposa que a publicou postumamente em Buenos Aires no ano de 1968, traz uma mensagem de esperança na superação individual pelo conhecimento. Nagib Anderáos Neto

terça-feira, 14 de agosto de 2012

O Ser Humano Sustentável

O ser humano sustentável deveria ser generoso, viver para si e os demais, os que estão aqui e os que virão. O sentimento de generosidade é de fundamental importância para a vida. Ele começa no aprendizado e deságua na docência, porque ninguém pode dar o que não tem, ensinar o que não sabe. Ser generoso é ser humano, desprendido, útil. É sentir o vínculo superior que a todos deveria unir; experimentar a realidade do que o cerca. Ser um e o mundo inteiro. O egoísmo contrapõe-se à generosidade e é expressão de um materialismo que permeia toda a cultura e se esconde sob o manto de um pseudo – progresso, justificado por teorias econômicas retrógradas onde tudo é permitido na busca do lucro e riqueza em nome da satisfação ou prazer de consumidores insaciáveis. Equivocados conceitos têm norteado a vida do ser humano tornando-o frio, materialista, calculista. Esse egoísmo sufocante deverá ser combatido e substituído pelo desprendimento, condição das almas generosas.Ele é sinônimo de materialismo, cobiça, busca exclusiva de prazeres.Leva à insensibilidade e a uma sede infindável por riqueza e poder. O egoísta, para consumar seus objetivos, não titubeia em destruir a Natureza ou os outros seres humanos. Nesta vida tudo tem seu tempo; se não realizarmos o que deveríamos, ele passa a pertencer a um passado que não poderá ser recuperado. A lição se reitera e determinará sua estreiteza ou amplidão. Se este é o tempo de combater o egoísmo que persiste , deveremos fazê-lo , deixando de ter atitudes egoístas, separatistas, transformando este amor desmedido às riquezas e prazeres no desprendimento, virtude que liberta da escravidão imposta por tal defeito. Partidos políticos, correntes ideológicas e religiões são divisionistas. Homens desunidos são domináveis; esse é o grande segredo dos déspotas, ditadores, impostores, escravizadores: manter a humanidade desunida para dominá-la. Os homens devem estar unidos pelo sentimento e o conhecimento, o coração e a razão. E dizer não aos predicadores, aos fariseus que em sua louca ambição pretendem impor pensamentos, idéias e padrão de comportamento que beneficiem suas ânsias de poder. Deus está em todos os corações e não é privilégio desta ou daquela religião, e nem aquele negado por ateus e agnósticos, por não ser mais que o amor que em tudo está impregnado: no filho, no pai, no sol, na Natureza eloqüente que está sempre a segredar atividade, paciência, vida e inteligência. O ser humano sustentável defende a humanidade, pois com o homem tudo se confunde, por ser ele o mesmo Deus que traz em seu coração, e como já dito reiteradas vezes, a medida de todas as coisas. Sustentabilidade tem a ver com permanência, evolução, educação. O sustentável é o eterno, o durável, o permanente. Nagib Anderáos Neto

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Os Dois Trabalhos de Hércules

O maior herói mitológico da Grécia, Hércules, símbolo da força, o mais forte homem sobre a terra, era uma espécie de semideus. Nada que existisse no ar, no mar ou na terra poderia derrotá-lo. Em suas aventuras há uma representação poética do valor posto a serviço da humanidade como na eliminação da serpente de cem cabeças, no combate aos gigantes, na morte do leão de Neméa. O seu intelecto, no entanto, não era forte. Ele não era um herói perfeito como Theseu, o dos atenienses, que era forte de corpo e intelecto. Mesmo assim, ele se julgava em igualdade com os deuses. Era um filho torto de Zeus; poderia apenas ser vencido por uma força sobrenatural, como de fato aconteceu por uma mágica encomendada por Hera, a esposa de Zeus que não era a sua mãe. Para a Logosofia, os trabalhos hercúleos e sobre-humanos não são doze, e sim dois: encarar, combater e derrotar a fera que cada ser humano traz dentro de si como herança ou estigma de épocas distantes, quando ela lhe fora útil em seus primeiros tempos sobre a terra, e unificar as qualidades e potencialidades que traz como herdeiro de um Criador que em todos infundiu o sopro da genialidade e do amor. Cada homem pode encarnar o Hércules legendário utilizando agora a sua força psicológica para derrotar os inimigos interiores, os seus defeitos, que lhe impedem contemplar a Verdade e ser feliz; viver em paz e cumprir a missão maior que lhe foi encomendada: evoluir e ser útil aos seus semelhantes. Numa conferência pronunciada em Buenos Aires em 30 de Setembro de 1948, o pensador e humanista Carlos Bernardo González Pecotche afirmava que “são estes os dois trabalhos de Hércules que é necessário realizar, porque as deficiências, que são as que desdobram a personalidade humana e as que enganam com freqüência o próprio ser, são as que também, convertidas numa espécie de diabo pessoal, aconselham constantemente o homem a crer-se o que não é. Um ser desta índole é o pior dos crentes, porque chega a converter-se em um pequeno deus, pessoal e infalível: e, logicamente, erguido sobre semelhante pedestal, rechaça todo o intento de aperfeiçoamento e anula todo o esforço que tenda a desarraigar nele esta recôndita crença”. Nagib Anderáos Neto neto.nagib@gmail.com

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Reminiscência de São Carlos do Pinhal

Sob o título “Aprendendo a Ver o Invisível” proferi palestras públicas em várias sedes da Fundação Logosófica, como as de Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Florianópolis e Brasília. Era para expor aspectos sobre a Logosofia, criação de Carlos Bernardo González Pecotche, por ele definida como a “especialidade científica e metodológica que se ocupa da reativação consciente do indivíduo”, também tida como a “ciência do invisível” por conter todo o princípio metodológico que ensina o ser a conhecer a vida e a atividade dos pensamentos, dos sistemas mental, sensível e instintivo, que são invisíveis. Planejei expor, a certa altura, uma passagem de minha vida inspirada no diálogo nº 44 do livro “Diálogos”, de autoria do criador da Logosofia sob o título “O ser que todos temos esquecido, em quem ninguém pensa apesar de, entretanto, constituir algo essencial para nossa vida”. Para expor uma parte do invisível que é referido nesse diálogo, recorri a um episódio de minha vida quando iniciava o período da adolescência. Quando tinha onze anos, para então seguir o chamado curso ginasial, fui estudar no Ginásio Municipal da cidade de São Carlos, hoje chamado Diocesano, cidade essa que o bispo Dom Gastão Liberal Pinto dizia situar-se no coração do Estado de São Paulo. Ali cumpri o curso em regime de internato; vivia o tempo todo no interior do ginásio, de manhã à noite, estudando, praticando esportes e convivendo com dezenas de outros colegas, com direito a passear pela cidade aos domingos e as férias nas casas das cidades de onde provínhamos. Dentre tantos colegas, referi-me a um em especial, Huascar, com quem convivi de 1941 a 1947, desde os onze até os quinze anos de idade. Em dezembro de 1947, então formados no curso ginasial, de cuja turma tive a honra de ser orador e da qual foi paraninfo Luiz Augusto de Oliveira “o Luizão” que hoje leva seu nome na estrada que sai de São Carlos , encontrávamos-nos na porta do majestoso edifício do ginásio para despedir-nos dos colegas que dali em diante passariam a viver nas cidades de origem. Naquela época usávamos calças curtas e também gravatas. Eu estava com uma gravata azul, reluzente, feita de fibra sintética criada após a recém-encerrada 2a. Guerra mundial. Havia sido presenteada por um querido parente. Quando o Huascar foi se despedir de mim, disse-me: “Eu gostaria de levar essa gravata sua como lembrança”. E eu, que gostava tanto daquela gravata, respondi: “Esta não. É a que mais gosto. Vou abrir a mala que está aqui e você pode escolher qualquer gravata para levar de lembrança”. E o Huascar me respondeu: “Não quero outra gravata. Se não posso levar essa, não quero qualquer outra”. Assim nos despedimos, ele sem a gravata azul e eu com ela. Muitos anos se passaram sem que nos tivéssemos visto ou conversado um com o outro. No curso desses anos, mudei-me para São Paulo, segui outros cursos, casei-me, tive filhos e, para onde ia vivendo, levava sempre comigo a tal gravata que não dei ao Huascar. A gravata já havia saído de moda e eu não mais usava. Mas sempre me fazia recordar do Huascar. E pensava: “Porque não dei a gravata ao Huascar?“ Serve sim para recordar as tantas vivências juntos no ginásio interno em São Carlos. Mas, e ele, sem ela? Assim passaram-se trinta anos, quando em dezembro de 1977 fui convidado para uma festa de confraternização com os formandos da turma de 1947, nas dependências daquele mesmo ginásio em São Carlos. Pensei: “Será que o Huascar também irá?” Reuni as fotografias da época, cartas, manuscritos e a tal gravata que não dei ao Huascar. Pensava em entregar a ele e dizer quanto aquela gravata me havia feito recordar dele e das tantas vivências que havíamos vivido na adolescência durante o internato naquele ginásio. Quando lá cheguei encontrei um colega que logo me reconheceu e perto dele havia outro que eu não consegui identificar. Eu portava a gravata no bolso externo de meu paletó, sem embrulho. Queria entregá-la ao Huascar rapidamente quando o encontrasse. E aquele colega que me identificou perguntou-me: ”Você sabe quem é esse que está ao meu lado?” Respondi: “Não”. Era difícil reconhece-los depois de 30 anos, todos com aproximadamente 45 anos, alguns já sem cabelo... E ele me disse: “É o Huascar”. Fiquei, e ele também, muito feliz com o encontro e nos abraçamos entusiasticamente. Logo em seguida coloquei a mão no bolso para retirar a gravata e antes que a tivesse retirado o Huascar me disse: ”Pois é Antonini, a ultima vez em que nos vimos você ficou me devendo uma gravata”. Fiquei atônito, perplexo. Parecia-me impossível que depois de 30 anos ele ainda se recordasse daquele episódio. Que eu recordasse era natural, pois a gravata esteve sempre comigo. Saquei então a gravata do bolso do paletó e a entreguei a ele dizendo: “Mas hoje eu a trouxe para você”. Foi a vez dele de ficar perplexo e atônito, enquanto eu lhe dizia quanto aquela gravata me havia feito recordar dele durantes três décadas. Cinco anos depois comecei a estudar um livro publicado em 1952, chamado “Diálogos”, de autoria de Gonzaléz Pecotche, o criador da Logosofia. Continha 53 diálogos, todos me encantando um mais que o outro, quando me detive de modo especial nas reflexões que me proporcionavam o Diálogo 44. Quando na palestra relatava o episódio da gravata, mencionei trechos desse Diálogo 44, como os seguintes: “Existe um ser a quem todos, sem exceção, temos esquecido; se é recordado uma ou outra vez, tem sido em forma circunstancial, mas essa recordação fugaz não cumpre o que vou assinalar, razão pela qual sinto-me movido a declarar seu geral esquecimento. Esse ser é a criança que cada um foi, aquela que brindou os melhores dias da existência e a quem, pode-se dizer, lhe devemos grande parte do que agora somos”. “Aquele que pensa nessa criança e a contempla através de suas recordações, em seus brinquedos, em seus pensamentos, em suas inclinações e em sua inocência, verá quanto tem de aprender dela e quanto lhe deve; mais ainda: quanto deveria conservar daquele pequeno que hoje, grande em tamanho e em idade, seja-lhe permitido experimentar, pelo menos, algumas daquelas inocentes, porém gratas sensações que brindaram a sua vida as melhores horas”. “Seria bom se cada um recordasse esse menino, o que foi, o que morreu. Que o recorde muito, porque nessa recordação vai implícito o enlace da atual existência com a que foi, pois o esquecimento não somente destrói o vínculo que as une, senão também a própria sensibilidade”. “Se esquecemos a nossa própria criança, aquela que morreu, cometemos com isso, talvez sem querer, um crime simbólico; morrerá também o jovem, e, sucessivamente, o que fomos ou temos sido em cada idade. Assim se irá esfumando no esquecimento e, sem sentir, morrerá em nós, lentamente, toda nossa vida”. José Antonio Antonini

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Tempo e a Eternidade

A Logosofia é um estudo que atende aos anseios objetivos e práticos do homem moderno que entende que a vida deve ser feita de mudanças, não apenas as circunstanciais, senão as essenciais, na maneira de pensar, sentir e agir; se for para mudar para melhor, então é melhor mudar. Recordemos a questão do tempo e da eternidade, e aquela sensação infantil de que ele não passava nunca, contrastando com o vertiginoso suceder das horas e dias quando avançamos em idade e sentimos que a morte se aproxima a largos passos, analogamente ao que acontece com a areia na ampulheta que desce lenta e vagarosamente no início, afunilando rapidamente no final. Qual seria o mistério do tempo? E o da vida? Essas reflexões reportaram-nos à obra de Spinoza, o pensador cuja família fugiu de Portugal no século dezesseis por causa da inquisição indo estabelecer-se em Amsterdã onde o jovem filósofo foi perseguido pela sinagoga local, excomungado e preso por defender as idéias do livre-pensar e por dizer não ser necessário morrer para entender sobre Deus e a eternidade, senão possível conhecê-la daqui, pois todos temos uma chama divina e interior, Deus no coração, e podemos e devemos pensar com liberdade, por própria conta. O estudo logosófico tem muito a ver com as inquietações de Spinoza; poder viver o mais além, o depois da morte, desde aqui; dar um salto por sobre a morte e experimentar a eternidade em nosso existir físico. O tempo é uma das forças que se movem no mundo e precisamos aprender e nos comportar com ela, pois é uma expressão de vida; quando ele é mal gasto, perdemos vida. O que significaria aproveitar o tempo? Para a Logosofia o aproveitamento do tempo tem muito a ver com o ato de pensar. Pensar no que? Em si mesmo, nos semelhantes e em Deus. Mas como? Pensar em si mesmo, em como se é, em como se modificar, melhorar como ser humano. Que defeitos eu tenho? No quê e como posso melhorar? Quais qualidades tenho e como posso ampliá-las? Compreendendo quem se é e procurando ser uma pessoa melhor, pode-se compreender o semelhante, conviver melhor . Vivendo esse processo de mudanças, pode-se experimentar a grande prerrogativa do aperfeiçoamento e ganhar tempo ganhando vida, vivendo numa vida várias outras, experimentando a eternidade no coração. Para a Logosofia, a vida do ser humano tem dois grandes objetivos: evoluir e tornar-se um servidor da humanidade. O ser humano sempre pressentiu algo superior movendo o Universo, mas extraviou-se procurando por todas as partes sem se dar conta que esse algo pudesse estar dentro dele mesmo, na sua consciência, no seu coração. Temos uma vida profissional, familiar, social. Mas temos também uma interior, a mais importante, e precisamos nos ocupar dela diariamente. Quando olhamos uma obra de arte, uma escultura, um quadro, um livro, é preciso compreender que o artista a fez durante um longo tempo, cada dia um pouquinho, e desses pequenos fragmentos somados surgiu a obra pronta através de uma concentração de tempo. A nossa vida deve ser como um grande livro, uma obra de arte na qual vamos agregando algo novo a cada dia, o livro da vida. O artista não pode ter pressa e nem preguiça. A maior obra de arte que o ser humano pode fazer é esculpir a sua figura, escrever o próprio livro da vida, ser o autor, o ator e o espectador dos seus dias, dando um salto por sobre a morte e vivendo a eternidade em seu físico existir. Esta é a mensagem que traz a Logosofia nos dias de hoje, uma filosofia prática da modernidade, e democrática, pois todos podem ser pensadores como Spinoza, Descartes, Sócrates, Platão; pensar e realizar em si mesmos o aperfeiçoamento que lhes faça compreender o porquê de estar aqui, para quê se vive. Hoje ainda há as perseguições medievais; e os maiores inimigos do livre-pensar estão dentro de nós. Precisamos conhecê-los e combatê-los: a inércia, a falta de vontade, o desinteresse, o materialismo desenfreado, o desequilíbrio entre a natureza física e a espiritual. O ser humano busca a Verdade por uma vocação natural. Ao não encontrá-la, ao entreter-se com o que não é essencial, pode chegar a envelhecer em plena juventude. O conhecimento logosófico aponta para um caminho que cada um pode percorrer com as próprias pernas, sem nenhuma muleta. Não traz respostas prontas às indagações humanas. E cada um, ao percorrer esse caminho de aperfeiçoamento pessoal irá identificando-se com a Verdade que é, em essência, o Deus que trazemos em nossos corações. Nagib Anderáos Neto

A Lei do Tempo

O mistério do tempo é o da vida. De sua compreensão depende a conquista da felicidade. Mais do que um bem precioso, o tempo é história, eternidade, paciência, sabedoria. Deus é paciência, disse a personagem de Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas. Uma parte de Deus também é tempo, irmão da paciência, pois lá estava no inicio de todas as coisas.Paciência, movimento e mudanças são lições diárias que a Natureza oferece através de suas múltiplas faces para a inteligência que pode decifrá-las. A fuga do tempo existe para quem não consegue retê-lo e multiplicá-lo. Neste caso, os ponteiros do relógio são uma tortura. Não há tempo suficiente para o cumprimento dos compromissos; ele passa muito rápido e escraviza a pessoa que julga que seja dinheiro, e, como tal, sempre lhe falte. Se tempo fosse dinheiro, Deus seria um banqueiro. Os dias que se sucedem monotonamente são noites mentais, pedaços de vida que se desprendem da pessoa deixando o saldo do vazio, a sensação de inutilidade, o esquecimento, o temor pela morte que se aproxima a passos largos. O tempo de vida do ser humano pode transcender a mensuração limitada das horas, dos dias e dos anos definida entre o instante do nascimento e o da transição para a morte. Essa ampliação do tempo é uma conseqüência da vida mental, a verdadeira. Pode-se viver muito ou pouco, dependendo dos conhecimentos que se tenha. Os tempos de evolução caracterizam-se pelo esforço continuado na busca do conhecimento e no desenvolvimento da consciência. Para aproveitar o tempo é necessário aprender a pensar, produzir soluções para os problemas diários.Administrá-lo bem significa acumulá-lo dentro de si; ser consciente do que se viveu e ter um plano para a vida futura; domínio sobre si e um objetivo definido; todos os atos e pensamentos imantados para uma finalidade que abarque o aperfeiçoamento da espécie humana; significa encarar a vida como um grande campo experimental de aprendizado e realização. Em um brilhante artigo escrito na década de quarenta, o pensador e educador González Pecotche dizia que " a lei do tempo é, como todas as leis universais, justa e exata; e é lei porque fixa, sem distinção, normas e regras inexoráveis. Assim demonstra o fato de que o tempo perdido não pode mais ser utilizado; é como um pedaço de vida que se desperdiça e não pode mais ser incorporado a ela." E numa conferência pronunciada em Córdoba em 1949," muitos momentos do dia passam em branco porque a mente, distraída por completo, se submerge na penumbra. Como é natural, estes trechos de tempo são pedaços de vida que se vão, por não se experimentar no curso dos mesmos a sensação de existir. " O tempo é como a água, um bem precioso que só se dá conta de seu valor quando falta, por ter sido mal empregue, desperdiçado. A rotina, a distração, as divagações e os rancores são inimigos do tempo por impedir que o homem pense, crie e construa um destino melhorado. Nagib Anderáos Neto

Uma Nova Cultura

Em 1930, Carlos Bernardo González Pecotche lançou as bases de uma nova cultura - a Logosofia - que haveria de se espalhar rapidamente por todo o continente americano. A nova ciência se mostrava como um caminho a ser percorrido pelos que pretendessem transformar as suas vidas num grande campo de aperfeiçoamento moral, psicológico e espiritual. Quem era aquele jovem que, aos vinte e nove anos, trazia os novos conhecimentos? De onde os teria extraído? Em que fonte teria bebido? Seriam necessárias décadas de esforços, estudos e realizações, a publicação de inúmeros livros, centenas de palestras, o surgimento de escolas de educação infantil e o resultado da aplicação daqueles conhecimentos na vida de milhares de estudantes, para que se pudesse avaliar a originalidade da ciência que estava no haver hereditário de seu criador que o ofereceu aos que quisessem construir um caminho para depois percorrê-lo com os seus pés, sem nenhuma muleta. Os conhecimentos, a técnica, o método pedagógico tinham uma diretriz fundamental: nenhum estudante deveria acreditar ou aceitar passivamente aquilo que a Logosofia vinha ensinar, senão buscar a comprovação do que recebiam como instrução. “A comprovação prévia de uma verdade é lei no processo de evolução consciente”, dizia o pensador. Essa garantia não puderam dar os predicadores que pretenderam escravizar as mentes através de preconceitos que cegavam os entendimentos. Quando afirmava que os agentes causais da vida humana eram os pensamentos que habitavam as mentes dos homens, e que seria necessário conhecê-los, identificá-los, classificá-los e selecioná-los através de um processo que tornasse possível a ascendência da vontade sobre eles, ao invés de ser seus escravos, isso não poderia ser aceito passivamente, senão compreendido profundamente. Um dos pilares da Logosofia – especialidade científica e metodológica que trata da reativação consciente do individuo - é sua concepção sobre o sistema mental constituído por duas mentes: uma comum, inferior, utilizada para a vida diária, e que pode ser parcialmente organizada através dos estudos correntes nas escolas e universidades; outra superior, que transcende, e que existe em latência em todo o ser humano. É muito comum ouvir-se dizer que usamos um quase nada de nossa capacidade mental que equivale à esfera mental inferior para a nossa sobrevivência na Terra; já a esfera superior precisa ser ativada para que se transcenda os estados primitivos em que se encontre. Os conhecimentos apresentados pela Logosofia tendem ao desenvolvimento do sistema mental como um todo, organizando a mente inferior e desenvolvendo as faculdades superiores. Se o ser humano continua se comportando como um selvagem, apesar de incontáveis séculos de lenta evolução, é porque não aprendeu a pensar, a reconhecer o Criador em tudo quanto existe, especialmente em si mesmo e nos semelhantes que deveriam merecer o maior respeito. Nestes tempos de violenta modernidade, o afastamento entre as pessoas e os povos é um distanciamento incompreensível provocado pela ignorância e preconceitos. As degradações das relações humanas são os sintomas do grande vazio promovido pela ausência da chama superior que todo o ser humano traz, mas que jaz adormecida como a bela princesa dos contos infantis. Para ter um domínio sobre si e conquistar a capacidade de enfrentar as dificuldades que a vida apresenta, é necessário preparar a mente, o que pouco tem ver com a instrução que se recebe nas escolas cujo objetivo se limita à capacitação profissional. Essa nova educação é mais ampla e abrange toda a vida. O homem vive em um mundo onde imperam os pensamentos e tem a equivocada sensação de ser senhor de sua vida, dos acontecimentos e do espaço que habita ; são os pensamentos que perambulam por aí que governam a vida dele. Veiculados pelos meios de comunicação, caminham de mente em mente, impressos em livros, provenientes, muitas vezes, de mentes exóticas, cujos donos de há muito se decompuseram sob lajes ancestrais que não conseguiram sepultar as idéias e os costumes que compõem o grande cemitério das chamadas tradições. Mas o que são os pensamentos? Sendo um produto da mente, não seríamos os seus senhores? Onde eles estão? Que sutil engenho poderia fotografá-los? São invisíveis? A que mundo eles pertencem? A existência do pensamento como agente da inteligência e promotor da felicidade ou sofrimento do homem é a prova cabal da realidade de um outro mundo desconhecido pela maioria das pessoas. Essa entidade invisível é perfeitamente palpável para as mãos do entendimento, desde que ele tenha sido convenientemente adestrado. O caminho da evolução consciente exige que a mente seja preparada para o conhecimento e domínio dos pensamentos, e capacitada para a criação de outros novos, filhos mentais gerados e educados pela pessoa que, através deles, poderá chegar a sobreviver aos curtos anos da vida no planeta. O império dos pensamentos poderá ser substituído pelo da inteligência através da reversão da condição humilhante em que a maioria se encontra, escravizada por pensamentos que perambulam pelo mundo. Carlos Bernardo González Pecotche faleceu em quatro de Abril de 1963 deixando uma vasta obra bibliográfica e uma Escola de Adiantamento Mental com sedes na Argentina, Uruguai e Brasil. A Logosofia continuou a ser estudada nas diversas sedes da Fundação Logosófica em Prol da Superação Humana que conta hoje com diversas sedes na América, Europa e Oriente Médio e seu objetivo é o aperfeiçoamento do ser humano. Para González Pecotche, viver deveria significar muito mais do que ser um mero espectador no teatro da vida, um repetidor de frases e gestos criados por outros. E para que se pudesse chegar à compreensão clara de seu significado, seria necessário exaltar o amor a ela; não o egoísta, separatista, que distancia os homens por interesses diversos, raças, ideologias ou religiões, mas o verdadeiro, o que exala de cada criatura e amanhecer como um motivo de vida, alegria e verdade. “A Sabedoria de Deus está plasmada na criação, enquanto que a do homem consiste em conhecê-la e servir-se dela para superar as etapas evolutivas de seu gênero”, escreveu o pensador. E conclui que “o homem busca o conhecimento porque é o meio pelo qual chega a compreender a sua missão e a sentir a presença em sua vida deste ser imaterial que responde ao influxo da eterna Consciência Universal e é portador, através dos tempos, da existência individual”. O conhecimento move o homem para que se eleve, para que deixe de ser o que é para ser algo melhor; e é o grande agente criador das possibilidades humanas. Na certidão de óbito do pensador consta a profissão de escritor, autor de composições literárias ou científicas. No dizer do advogado José Antonio Antonini, estudante de Logosofia e editor que teve a oportunidade de conhecer pessoalmente González Pecotche, “aqui se sobressai uma dessas particularidades do escritor: ele é autor de composições, não somente de uma ou outra modalidade, senão de muitas, tanto literárias quanto científicas. E fazia-o valendo-se de formas conhecidas, como o romance, o diálogo, a expositiva, a poesia, o tratado, mas sempre vinculando tais formas ao gênero científico, visto ser o criador de uma ciência que denominou Logosofia, uma especialidade científica e metodológica que se ocupa da reativação consciente do indivíduo. Também foi editor, ilustrador, pintor, músico e compositor. Sua partitura sobre Recordações Egípcias, ele a executava em uma rádio Argentina. O que o distinguia da generalidade dos escritores era precisamente esta aptidão de incursionar em todos os matizes da composição literária, vinculando o leitor aos princípios metodológicos e científicos desta ciência da vida ou do invisível que se encontra em cada ser”. A presença marcante do espírito de González Pecotche não haveria de esmaecer-se com o seu desaparecimento físico, pois os seus pensamentos estavam consubstanciados no grande movimento por ele iniciado do qual fazem parte todos os estudantes e pesquisadores, as escolas criadas, a vasta bibliografia, as centenas de conferências pronunciadas e os eloqüentes resultados obtidos através da aplicação do novo método pedagógico que afirma que o ser humano pode ser dono de sua vida e destino, ao aprender a pensar, libertando-se das travas seculares que imobilizaram a sua inteligência e vontade transformando-o num ser violento, irascível, perturbado e incapaz de conviver em paz com os semelhantes. Depois de séculos de orfandade espiritual marcados por guerras inomináveis e sofrimentos sem par, o homem deveria começar a construir um novo caminho reconhecendo suas limitações e defeitos, conhecendo-se melhor e transformando a sua pessoa num ser verdadeiramente humano, deixando de comportar-se como um animal para compor um quarto reino, o hominal, no qual figurariam os seres inteligentes e não os que fazem descobertas para infernizar a vida da humanidade. Dentre as grandes lições deixadas pelo humanista destaca-se a da gratidão ao bem recebido que nos permite mantê-lo como um talismã que haverá de substanciar os dias futuros e iluminar o caminho dos que virão trilhá-lo. Através da gratidão e da recordação, o espírito daqueles que beneficiaram a humanidade em sua breve passagem pela Terra sobreviverá e prosseguirá em seu silencioso e humanitário trabalho, invisível aos olhos de muitos, mas sólido e consistente sob a perspectiva da História. Nagib Anderáos Neto neto.nagib@gmail.com

O Ditador Deve Morrer

O artigo fora publicado em 1941 numa importante revista cultural de Buenos Aires e chegou às minhas mãos recentemente. Naquela época o mundo estava infestado de personagens teatrais que pretendiam resolver todos os problemas com discursos inflamados, violência e enganação. Nada muito diferente do que ocorre hoje em dia quando os atores são mais astutos e tão tergiversadores como aqueles: Mussolini, Hitler, Perón e Stalin que fizeram escola pelo mundo afora. O artigo falava dos verdadeiros ditadores e não daqueles seres que deveriam ser apagados da história humana. Sua atualidade é indiscutível porque os verdadeiros ditadores não morreram, continuam muito vivos, porque são muito sabidos, muito mal sabidos. “Cada ser humano, desde que balbucia as primeiras palavras e põe de manifesto seus desejos, mostra com clareza meridiana a presença, dentro de si, de um ditador que se empenha por impor a própria vontade pretendendo, como conseqüência de tão caprichosa inclinação, que todos lhe façam o gosto, quer dizer, que lhe obedeçam.” Com esse lance ágil da inteligência o autor tira o foco das atenções daquelas figuras centrando-o no próprio leitor: cada ser humano carrega dentro de si um ditador que deve ser eliminado; aquele ser inflexível que imagina que o mundo existe para servi-lo; que vê no opositor um inimigo; que não aceita nenhuma idéia diferente da própria; que traz no cenho carregado a imagem do dominador implacável. E o autor prossegue explicando que esse ditador é a “soberba embebida de amor-próprio” e que é muito difícil matá-lo. E finaliza concluindo que “a sensatez adverte que todo proceder correto, nobre e amplo haverá de inspirar simpatia e confiança, enquanto que a postura caprichosa, autoritária e intransigente, conspirará contra a própria personalidade”. “A soberba é a mente embriagada de ficção, o absolutismo do instinto, a negação da sensatez, o reverso da compaixão” escreveu o autor no livro Deficiências e Propensões do Ser Humano onde são esquadrinhados os defeitos mais comuns aos seres humanos e apresentado um interessante método de combate a estas características psicológicas que tanto nos fazem sofrer. E diz também que o amor-próprio “conduz o ser à egolatria, ao egocentrismo, e é a causa constante de sua má colocação onde quer que atue. Este pretende sempre o que nega aos demais. Esquece a lei de correspondência que obriga à reciprocidade do amor, do respeito, da consideração e demais deveres entre os seres humanos, e busca, em troca, embriagar-se com acentos da admiração que a si tributa”. Quando González Pecotche escreveu esse artigo deveria estar com quarenta anos. O jovem pensador iniciara, onze anos antes, um grande movimento humanista que da Argentina se espalharia pelo mundo. Conhecido e reconhecido por sua inteligência e coragem, criara, no início daquela década, a revista Logosofia que cumpriria importante papel na divulgação de suas idéias num período em que a publicação de livros estava dificultada em função da grande guerra engendrada por terríveis ditadores. A nova ciência conformava, no seu dizer, uma especialidade científica e metodológica que tratava da reativação consciente do indivíduo. Por isso a atualidade do conteúdo comentado: cada um de nós haverá de identificar, combater e eliminar o ditador pretensioso que se disfarça qual camaleão nas profundezas da própria psicologia. Nagib Anderáos Neto

Logosofia

A Logosofia surge na República Argentina no ano de 1930. Naquele mesmo ano foi criada a Fundação Logosófica em Prol da Superação Humana em 11 de Agosto na cidade de Córdoba com o objetivo de difundir os novos conhecimentos. Logo se expandiu por toda a Argentina, Uruguai e Brasil. González Pecotche, sempre à frente do movimento, trabalhou incansavelmente na criação e edição de livros e revistas. Proferiu palestras e assistiu o surgimento de inúmeras filiais daquela que era para ele uma Escola de Adiantamento Mental porque proclamava a possibilidade de cada ser humano poder ser seu próprio redentor, ao invés de entregar sua vontade e inteligência aos mercadores da Verdade. A produção literária foi acelerada e a mensagem da Logosofia chegou a muitos pontos do planeta. A tímida escola de Córdoba alcançou contornos mundiais. Milhares de estudantes em todo o mundo experimentam hoje os benefícios do estudo que tem como objetivos principais o aperfeiçoamento individual e a união dos seres humanos. Por não trazer nenhuma mensagem sensacionalista, por não pretender ser nenhuma panacéia e não secundar nenhum interesse político ou econômico, por ser uma escola de estudo e investigação da figura humana, a Logosofia não penetrou na grande mídia, apesar de conhecida e estudada em inúmeros países na América e Europa. Na Argentina,Uruguai e Brasil são criados os Educandários Logosóficos, escolas - modelo onde os alunos são também orientados no sentido do desenvolvimento psicológico, moral e espiritual, libertos de preconceitos seculares que têm afastado o ser humano de si mesmo, de seus semelhantes e de Deus. Nascido em 11 de Agosto de 1901 e falecido em 1963, Carlos Bernardo González Pecotche transpõe os limites das fronteiras de seu país para se tornar um cidadão universal. O grande legado que deixou para seus amigos e discípulos foi o exemplo de uma vida inteiramente dedicada ao enobrecimento da espécie humana. “A vida do ser humano tem dois grandes objetivos: evoluir em direção à perfeição e tornar-se um verdadeiro servidor da humanidade”, disse certa vez o pensador. Para isto, a Logosofia contribui com conhecimentos essenciais para a mente e sensibilidade humanas. No despontar do terceiro milênio, quando as sombras de um século conturbado se desvanecem defronte das luzes de uma nova era, a Logosofia surge com uma nova mensagem de alento aos espíritos ávidos por mudanças e conhecimentos. Nagib Anderáos Neto